S
enhoras e senhores políticos,

Certamente, é inútil lembrar a onda de descontentamento que esta se espalhando pelo mundo.

O que é útil no entanto é tentar compreender a orígine destes movimentos.

O político, ao contrário da ideia que temos, baseada na experiência, não esta no poder mas sim no dever. É, pelo menos nos países democráticos, assim que deve ser entendido o papel dos eleitos do povo. Se pegamos a etimologia da palavra democracia, não há dúvida nenhuma quanto a isso. Portanto, os políticos formaram uma classe, o que é contrário a ideia do dever politico de atender as necessidades e aspirações da população.

O voto é importante, mas o debate sobre as propostas de sociedade dos candidatos é talvez mas importante ainda. Se o voto existe, é para podermos escolher entre uma proposta ou outra. Mas quais são as propostas que vocês políticos estão apresentando ?

Infelizmente, vocês, senhores e senhoras políticos, não possuem uma visão clara da realidade por se beneficiar de inumerosos privilegios que são contrários à noção de democracia. Sem uma analise objetiva dos problemas da sociedade, vocês não têm capacidade de propor, e ainda menos de oferecer alternativas viáveis.

Num periodo de grave crise como a que vivemos, as respostas da classe política provem de uma velha receita que não se aplica mais à realidade atual. Para se convencer desta afirmação, basta olhar a situação dos países mais desenvolvidos deste planeta. A receita que permitiu esses países se tornarem os mais “desenvolvidos” não funciona mais. As populações, que nem sempre apoiaram as decisões de seus dirigentes, se dão conta hoje que elas devem pagar um preço alto pelas escolhas feitas em nome de uma sociedade ultrapassada.

O que nos pedimos aos políticos não é aplicar velhas receitas para problemas novos, mas ter uma visão objetiva da crise e a coragem de tomar reais decisões para pelo menos enfrentar os graves disfuncionamentos de nosso sistema socio-economico.

Já faz algumas décadas que sabemos que a degradação do nosso meio ambiente é uma ameaça séria à nossa permanência no planeta. No entanto, nada, além de discursos, foi realmente feito para, senão resolver, pelo menos diminuir esta ameaça. Todas as respostas nesse sentido não passaram de “gambiaras” que não resolvem nada. Pior, os países que têm potencial para abrir novos caminhos se limitam à seguir estas velhas receitas que estão falhando onde foram inventadas. O caso do Brasil é exemplar neste sentido. País de primeira importancia para o planeta, o Brasil desperdiça suas riquezas (naturais e tambem humanas) em nome de um crescimento incompatível com as regras de um eco-sistema planetário limitado.

Isto é o ponto crucial da questão. Não há como negar que nosso planeta é um espaço finito. Então, como acreditar que poderemos explorar de forma tão irresponsável  e sem limites os recursos limitados que temos ? Esta visão a curtissimo prazo (o tempo de um mandato) não é digna de dirigentes !

O nosso sistema é gangrenado pela corrupção motivada por uma sociedade baseada na competição e no poder.  Isso leve à exploração, tanto do nosso meio ambiente como de nossos semelhantes. E esta exploração leva à um desequilíbrio que só pode ser prejudicial à sociedade. A reação natural a qualquer desequilíbrio é a procura de um estado  equilibrado.

Felizmente, as populações estão tomando consciência deste desequilíbrio, e manifestam a sua desaprobação. Resta agora à vocês, senhoras e senhores políticos, se darem conta deste recado. Este descontentamento não é mais diretamente ligado ao poder aquisitivo, à falta de empregos ou a condições precárias, mas à compreensão de que nosso sistema não é mais viável. Em razão da motivação profunda deste descontentamento, é ilusório pensar que “isto vai passar”. É claro que a classe política, que não atende mais às aspirações da população por ter sido privatizada e à serviço do “mercado” dirigido por grandes empresas, não esta pronta para abrir mão de seus privilégios. Este é seu grande erro, pois a necessidade de mudanças profundas não poderá mais ser escondida e varrida de baixo do tapete.

É preciso entender que tudo esta sempre evoluindo, nada pode permanecer para sempre. A modernidade não é se limitar à fazer funcionar o que funcionou (mais ou  menos bem) até agora. A democracia não é um estado estável e permanente, a economia ou a ditadura menos ainda.

A crise que estamos vivendo hoje não pode ser encarada como um episódio passageiro. Esta crise é sem dúvida a maior que a humanidade enfrentou até hoje. Ela é global  e evidencia a necessidade absoluta de reformular com objetividade e honestidade as necessidades do ser humano considerado como parte de um meio ambiente planetário. Isto supõe uma analise profunda dos conceitos fundamentais  nos quais a sociedade deve se basear : justiça, dignidade, interação do homem com seu ambiente, desenvolvimento humano,... e sustentabilidade. Os nossos velhos paradigmos materialistas devem ser substituidos por outros mais conformes à realidade atual.

Isto se fará, com ou sem a chamada classe dirigente.  A violencia que poderia resultar deste processo só dependerá da reação dos atuais privilegiados deste velho sistema. Quanto mais cedo vocês, politícos, entenderão que nada pode ser feito para evitar esta mudança necessária, melhor, pois trata-se de um imperativo inadiável.

Peço então aos políticos assumirem,  para o bem das populações, o seu verdadeiro papel de regulador dos excessos maléficos de um sistema socio-economico decadente.  Os políticos profissionais devem abandonar sua prepotência e sua submissão ao setor privado para voltarem a trabalhar para a sociedade e resgatar o verdadeiro poder público.

“Tudo que contradiz a lógica e a experiência deve ser abandonado.” Esta frase du Dalaï Lama ilustra perfeitamente o caminho que a humanidade deve tomar, e tomará de qualquer maneira. A sociedade é composta por indivíduos e cada um deles merece respeito. Sacrificar indivíduos em nome de um ilusorio beneficio commum não é mais aceitável, no entanto, é geralmente o que vocês políticos fazem, afirmando que interesses de uma pequena parte privilegiada da população é o beneficio comum.

Cordialmente,  

Chico






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Carta aberta aos políticos - 25/10/2011
Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente, e para a mesma razão.
Eça de Queiroz
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