E
u nunca concordei com o Programa de Aceleração do Crescimento, simplesmente porque não precisamos crescer. Precisamos mesmo é nos desenvolver.

O crescimento é de ordem quantitativo, o desenvolvimento é qualitativo. O que adianta ter mais, maior, se não temos o que toda sociedade sadia deve proporcionar ao cidadão, o básico, a dignidade ?

Nós não temos saúde nem educação públicas de qualidade, mas queremos centrais nucleares.
Nossos rios se tornaram esgotos, morremos na fila do SUS, nossos filhos são treinados para ser consumidores dóceis e vorazes.  O que chamamos de “aterro sanítario” não passa de lixo amontoado em qualquer lugar, mas queremos cortar as nossas florestas, continuar vendendo barato as nossas matérias primas, destruindo o nosso maior e mais belo patrimônio, a nossa Mãe Terra.

O PAC é isso tudo, em nome de um crescimento que só favorece os barões da economia mundial. O PAC é uma “estrategia” errada de “desenvolvimento” nada democrática. E a senhora sabe disso, senhora presidente.

Hoje, eu acredito que este PAC não é só injusto. Ele se tornou obsoleto nesta lógica liberal que está  por ser modificada. Perseverar com este programa é hoje criminoso, em razão da sua injustiça e da destruição que provoca.

O PAC foi criado dentro de um contexto econômico mundial que já não existe mais. A sua pertinência, num futuro próximo, é incerta e duvidosa. Continuar aceditando nas qualidades de um tal programa, é fazer uma aposta jà perdida.

As economias dos países mais ricos do mundo estão de tal forma desgastadas  que alguma coisa, inevitavelmente, vai ter que acontecer.  A Grécia esta falida, levando com ela o resto da União Europeia. Muitos países já estão sofrendo este efeito dominó. Os Estados Unidos, maior “economia” do mundo, está em recessão crónica. Esta situação, num contexto global só pode ter consequencias globais.

Não sabemos o que esta por vir. Taxas sobre as operações financeiras ? Controle maior do comercio internacional ? O pánico dos apostadores nas bolsas de valores vai provocar uma queda vertiginosa das ações, os fundamentos de nosso sistema estão ruindo. É inevitável que mudanças aconteçam. Os povos estão pressionando para que isso ocorra. Os movimentos sociais na Europa e nos Estados Unidos são muito fortes, apesar dos orgões da mídia “politicamente correta” não abordarem este assunto. Em outras partes do mundo, estes movimentos estão crescendo, inclusive no Brasil.

E agora Dilma ? O que vai fazer ? Continuar insistindo num modelo já falhido ? Reprimir com violencia os acampados no canteiro de obras de Belo Monte ou nas praças de nossas cidades ? Evo Morales jà tentou esta opção e se deu mal. Eu duvido que uma pessoa que soffreu nas mãos da ditadura militar escolha esta opção.

Quais eram os teus ideais, companheira, quando a senhora estava sendo torturada ? Sonhava num mundo a serviço do capital, devorando tudo, explorando, destruindo, matando...? Não pode ser ! Mas então, o que aconteceu, “companheira” Dilma ? Não conseguiu resistir as pressões da Monsanto e outras Bamin ? Não está  vendo que estamos numa ditadura mais insidiosa que aquela contra a qual a senhora lutou tanto ? Esta ditadura rouba, destrõe, mente, corrompe, manipula, mata tambem. Quantos líderes comunitarios vão ter que ser assassinados pelos capangas do capital do qual a senhora se tornou cúmplice ?

Dilma, se o povo tem capacidade para eleger seus “representantes”, ele tambem tem capacidade para saber que tua opção de “desenvolvimento” não vale nada.

Não estamos contra o desenvolvimento, ao contrário, só que a  proposta de seu  governo é autoritária (se é que com autoritarismo pode-se fazer proposta) e  não corresponde às necessidades atuais. Um desenvolvimento sustentável não é aquele que sustenta alguns privilegiados em detrimento do resto da sociedade.

Uma boa opção da parte de um chefe de estado da importancia do Brasil, e que esta na sua situação, seria juntar este dinheiro todo (que alias é público, nosso) e investir no que é realmente sustentável : a educação, a saúde, o saneamento básico, a luta contra a corrupção...  Além de sustentáveis, essas medidas são um real desenvolvimento. Não é isso que a senhora quer, “companheira” Dilma,  desenvolvimento sustentável ?

Será que para os políticos Fukushima só representou uma parte do mercado pronto para ser conquistado de novo ? Só porque achamos urânio de ótima qualidade na Bahia, temos que construir centrais nucleares ? Fala sério “companheira”, nós nem tratamos corretamente o nosso lixo doméstico e queremos lidar com lixo radioativo ?

Nossos políticos têm que ser visionários nestes tempos difíceis. Infelizmente, Dona Dilma, a senhora não é visionária, é só uma tecnocrata a serviço de outros “patrões”, que não a elegeram mas a compraram. Seu governo não tem noção da realidade do povo brasileiro.

Estas palavras certamente devem doer. Minha intenção não é agredir ninguém, mas a democracia tambem é aprender a escutar críticas, e levá-las em consideração. Eu só estou exercendo meu direito de expressão, intrínseco a cada ser humano. A senhora tem todo o direito de não concordar comigo, mas tem o dever, como presidente de um país democrático, de analisar e entender meu ponto de vista. Ou será que não é mais democracia ?

Se um dia, os capangas dos ladrões de nossas vidas aparecerem  à minha porta para me calar, como fazem com tantos outros, eu responsabilizarei a senhora que, se tornando cúmplice, não assumiu o seu papel de representante do povo e guardiã das nossas instituições.

Eu sei que tudo isto que, junto com milhares de outras pessoas, estou pedindo não é fácil. Mas temos que construir juntos este mundo mais justo pelo qual a senhora sofreu no passado, e isto tem que ser feito agora.

O Brasil tem trunfos consideráveis para abrir outros caminhos necessários. Ignorar isto é simplesmente criminoso.

Esperando que a justiça e a democracia sejam resgatadas, continuarei  lutando, como a senhora lutou no passado, para que o ser humano e a vida em geral não se tornem mercadorias.

Cordialmente,

Chico






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E agora Dilma - 30/10/2011
Não vamos acreditar que os responsáveis de ontem eram mais ignorantes da situação que os de hoje! 
Raymond Devos
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