Os problemas que o Brasil enfrenta hoje em relação ao desenvolvimento e ao meio ambiente evidenciam uma visão errada que temos quanto à preservação ambiental. Sempre consideramos que para preservar uma área, devemos deixa-la intocada, e sobretudo, não usar os recursos que ela oferece. Em outros termos, uma área destinada à preservação ambiental deve ficar improdutiva, inclusive para os seus habitantes.

Com a necessidade inegável de desenvolvimento, essas áreas, que foram decretadas de preservação justamente porque são ricas, mas que não produzem riquezas, são cobiçadas para a implantação de empreendimentos industriais, que, principalmente no caso da siderurgia ou da petroquímica, são contrários à noção de preservação ambiental.     

Considerando que a preservação do meio ambiente não é contraditória com a geração de riquezas, poderíamos nos desenvolver sem prejudicar um patrimônio que levou milhares de anos a se constituir, e do qual dependemos diretamente. Ele nos fornece o ar, a água, a alimentação, os remédios, a beleza, o bem-estar,...

O caso da Área de Preservação Ambiental (APA) da Lagoa Encantada e Rio Almada, em Ilhéus, Bahia, é, nesse sentido, exemplar. Temos um eco-sistema com uma biodiversidade extraordinária, dentro das mais ricas do mundo. Desde a sua criação, em 1993, nenhum programa sério de valorização destas riquezas foi implantado. Pior, a fiscalização, alias muito pouco rigorosa, baseada na repressão em vez da prevenção e da informação, tornou os habitantes da APA hostis à idéia de preservação ambiental. Hoje, até o próprio governo que criou esta APA, tem projeto industrial (o Porto Sul) a ser implantado dentro da APA que causará impactos irreversíveis ao meio ambiente e à organização social da região inteira. APA(lhaçada) da Lagoa Encanada !

Isto poderia ser evitado com a criação de programas de valorização dos recursos naturais e humanos desta região. Para preservar o meio ambiente, é indispensável que os atores locais sejam implicados no processo, e que sejam geradas riquezas oriundas deste meio ambiente, tanto em termos nacional, estadual, regional, como também individual. Assim seriam criados uma economia e um dinamismo econômico benéficos para todos.

Com o mapeamento da APA, poderíamos instalar uma rede de turismo sustentável, equitativo e solidário, baseado no principio de trek que melhoraria significativamente as rendas das famílias morando na APA. Este turismo, que não necessita de infra-estruturas pesadas e caras, é em forte crescimento no mundo, principalmente na Europa. A maior parte do investimento inicial seria na formação de guias, de agentes de atendimento turístico (restauração, hospedagem,...) e na criação de infra-estruturas sanitárias (fossas, coleta e tratamento do lixo,...) Existem técnicas alternativas de qualidade.

Esta atividade incentivaria a agricultura familiar que teria um escoamento suplementar para o abastecimento das pequenas estruturas turísticas. Um amplo programa de implantação de sistemas agro-florestais (SAF) permitiria uma grande produção de alimentos de qualidade, tanto para o mercado local como para a exportação. Numerosos produtos de alto valor comercial poderiam ser explorados : baunilha, copaíba, noz muscada, mangustão, pimenta do reino, couro e carne de jacaré,... Com isso, poderiam ser criadas estruturas de beneficiamento, proporcionando vários empregos diretos e indiretos.

A riqueza deste eco-sistema deve ser estudada pelos cientistas, notadamente pelos da UESC (Universidade Estadual Santa Cruz), com o objetivo da descoberta de moléculas valiosas para a industria farmacêutica. Além de permitir a auto suficiência do país em termos farmacêuticos, o Brasil poderia se tornar um líder mundial nesta área geradora de grandes riquezas à curto, médio e longo prazo. Estes programas de pesquisa científica devem se apoiar nos conhecimentos tradicionais da população, o que provocaria a valorização dos modos de vida, do saber e da cultura local.

Graças à estes programas, a preservação ambiental criaria uma economia significativa e realmente sustentável. A APA deixaria de ser uma zona improdutível, a população local não seria obrigada a se instalar nas periferias urbanas, e com a melhoria do nível de vida, os índices de violência diminuiriam. Os recursos naturais seriam preservados para as gerações futuras, e a região estaria atuando contra as mudanças climáticas. Com o desenvolvimento dos indivíduos, a região poderia alcançar a sustentabilidade democrática e o respeito de um texto cheio de esperança : a constituição brasileira.

Mas apesar de um discurso oficial neste sentido, os governos municipal, estadual e federal querem a qualquer custo seguir um modelo de desenvolvimento que já provou não dar resultados positivos a longo prazo. Os interesses dos poderosos são certamente contraditórios com os dos cidadões comuns.






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Uma esperança para Ilhéus ?
Em nome de um "crescimento" ilusório, o dinheiro público financia o setor privado e contribui na destrução do pouco que resta da mata Atlântica.
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